Recanto nem tão secreto de uma Ariana

Aceita um copo? Então sente-se, acomode-se e divirta-se.

30 Julho, 2009

Lei de Murphy - Cap. IV

O confronto

Ao encontrar Mu, Shaka correu até ele sem preocupar-se com mais nada a sua volta. Ajoelhou-se e segurou o corpo adormecido de Mu em seu colo. Nada falou além do chamado desesperado. Seu coração estava despedaçado com a cena que tinha diante de seus olhos. Acariciou os sedosos cabelos lavanda. Ainda silenciosamente tirou o manto que tinha sobre o sari e cobriu a nudez do amado. Olhou as doze casas com rancor. Havia entregue sua juventude, sua vida e agora que encontrava a felicidade ela era novamente arrancada de si. Não importava quem ou o quê havia feito aquilo com Mu, iria pagar caro, muito caro.

Levantou-se com o ariano em seu colo e começou a subir as escadarias. Os cavaleiros que guardavam as casas de Touro, Câncer, Gêmeos e Leão olharam curiosos para a cena. Shaka subindo as escadas com Mu adormecido enrolado apenas em um manto, Shun e Hyoga silenciosamente atrás. Mu estaria morto? Apesar da curiosidade nenhum deles tivera coragem de emitir um único som. Nada. Apenas respeitoso silêncio.

Shaka depositou Mu com suavidade em sua cama, acendeu um incenso de sândalo e saiu do aposento. Shun e Hyoga esperavam ansiosamente pelas decisões de Shaka, mas respeitavam seu momento e sua dor, aguardando no salão da casa de Virgem.

- Shun, Hyoga, comuniquem a Athena minha chegada e também o aparecimento de Mu. Digam a ela que solicito sua presença em minha casa.

- Mestre, Mu está ... – Shun não sabia como obter a resposta crucial.

- Morto? Não! Meu amado está apenas adormecido, enfeitiçado.

- Por Zeus! Sabe como desfazer o feitiço, Shaka?

- Creio ser apenas uma questão de tempo, Hyoga. Só não faço idéia de como ele irá acordar. Por favor, façam o que eu pedi.

Shun e Hyoga retiraram-se sem mais demora em direção ao décimo terceiro templo levando o recado de Shaka. Estavam apreensivos, o que poderia estar ocorrendo afinal? Shun, enquanto subia as escadas, pensava nas lutas passadas. Nunca vira um poder assim, pois Mu não parecia ter lutado. O que derrubaria um cavaleiro forte como ele sem luta? E por que ele não fora morto? Lembrou-se de Camus. Ele havia dito que tinha uma sensação de que ainda haviam segredos e Shun agora, mais que nunca, tinha certeza absoluta disso. Sacudiu a cabeça e balançou os cachos verdes tentando espantar os pensamentos funestos. Tudo seria esclarecido em seu devido tempo. Assim seria.

Saori recebeu o recado de Shun e desceu as escadas em uma correria desabalada. Então era tudo verdade. Chagou ofegante à casa de Virgem entrando de maneira atabalhoada.

- Pode ficar tranqüila, Athenas. Mu está fisicamente bem e ainda adormecido. Temos muito tempo para conversar. Sente-se. Aceita um chá?

Saori sentou-se em uma almofada indicada por Shaka e aceitou o chá com um aceno de cabeça. Precisava de tempo para regularizar a respiração e tentar ordenar um pouco as idéias.

- Shaka, desculpe-me. Preciso contar-lhe o que está acontecendo.

- Poupe seu fôlego. Já sei o que está acontecendo.

- Shun...

- Por favor, Saori, chega! Eu sei que és Athena, que devemos a você toda lealdade e obediência, porém, se ele nada me contasse, eu não viria. Vamos deixar hierarquias e ordens fora dessa casa.

- Shaka! Eu tive meus motivos para ordenar o que ordenei. Eu queria evitar exatamente este rancor, este ódio que posso claramente ver que está dominando seu coração.

- De que maneira Saori? – Shaka perdeu o controle e gritou, com toda a fúria que o dominava. Não mais se importava se estava falando com uma Deusa ou com uma colegial – Como eu poderia perdoá-la se tirou Mu de mim? Que loucura é essa? Que segredos são esses? Por que eu? Que merda!

- Se você me ouvir talvez consiga entender.

- Não creio, mas vá em frente.

- Shaka, o que você sabe a respeito das “Entidades da Floresta Sangrenta” ?

- Por Buda! São eles?

- Sim.

- Mu... um lemuriano... – Shaka se calou, fechou novamente os olhos, abertos no momento do desespero. – Entendo, mas, porra, porque diabos não me disse nada?

- Eu não tinha certeza. Mu tinha ido com ordens apenas de se certificar. Precisava saber se eram realmente eles. Se fossem, como podemos agora ver que são, ele seria o único que não correria risco de morte.

- E o Shion?

- Deve estar chegando a qualquer momento.

- Então essa história de mandar a mim e ao Máscara foi um engodo?

- Sim, eu precisava ganhar tempo.

- Você está se mostrando uma boa estrategista.

- Tenho bons mestres. Mas estou sofrendo muito. Tem idéia do quanto já sofri e já me culpei pelo que fiz a você? Por favor, Shaka, quando tudo ficar bem não culpe Mu. Se ele tivesse contado a você, você o deixaria ir sozinho?

- Óbvio que não! – depois de responder Shaka calou-se, olhou para Saori e começou a rir – Mu está me conhecendo bem demais. Mas agora ele está enfeitiçado e até que ele acorde não temos como saber o que aconteceu.

De repente ambos ouviram um barulho vindo do quarto de Shaka, correram para o aposento e encontram um abajur quebrado no chão e um Mu assustado debaixo da coberta.

- Mu, você está bem?

- Desculpe foi sem querer!

- Claro, eu sei meu querido. Só quero saber se você está bem.

- Estou tio. Onde eu estou? Quem é você? E aquela tia bonita ali, quem é?

- Tio! Tia! Mu o que aconteceu com você?

- Comigo? Eu to com fome, tio! E To com frio também. Vem brincar comigo? – um começou a bater palmas e brincar com os próprios dedos.

Shaka ficou olhando para seu companheiro de lutas e de vida reduzido a uma criança sem entender absolutamente nada. Saori não resistiu e começou a rir.

- Saori quer ficar quieta! Você não percebe o tamanho do problema?

- Claro, Shaka, mas ele não é uma gracinha?

- Saori!

- Tio, me dá comida! – Mu levantou-se sem se importar com a própria nudez e começou a puxar o cabelo de Shaka pedindo comida.

- Mu, comporte-se! Vá colocar uma roupa enquanto preparo algo para comermos. Você me ouviu?

- Sim, Tio, já vou. Onde tem roupa pra mim?

Shaka entregou um sari ap "garoto" e foi para cozinha preparar alguma refeição.

- Ninguém merece isso, Buda, me perdoe, devo ter feito algo muito errado para merecer um castigo desse. Tudo está errado! Tudo está dando muito errado. Uma deusa adolescente que começa a despertar a divindade e se acha a “estrategista”, um bando de entidades sanguinárias e malucas a solta, aquele que poderia controlá-las reduzido a um bebê e o outro sumido no mundo... o que mais poderia me acontecer?

Mal terminou de falar, Shaka esbarrou na xícara de chá que caiu ao chão espatifando-se e espirrando líquido fervente em suas pernas.

- Pronto, espero que agora não falte mais nada...

- Tio Shaka, onde tem banheiro? – entrou Mu torcendo as pernas.

- Venha, Muzinho, vou te levar lá... – não deu tempo, Mu deixou escapar um enorme jato sujando toda cozinha.

- Argh! Merda! Merda! Merda! Maldita hora que fui ouvir o Shun. – mal Shaka acabou de praguejar, teve uma idéia genial – Shunzinho meu discípulo querido, vamos ver se você conseguiu desenvolver sua serenidade, hehehehe, venha Mu vamos tomar um banho.

Shaka deu banho em Mu, tarefa que não foi muito complicada por conhecer bem aquele corpo, e depois deu a ele uma nova roupa, limpa.

- Venha Mu, quero te apresentar o Tio Shun, ele vai brincar um pouco com você.

- Eu não quero sair... – o ariano fez beiço e ameaçou um choro.

- Mu de Jamiel! Não seja mal-criado, venha! – Shaka levou-o em direção ao templo do mestre onde os bronzeados estavam hospedados.

"Pelo menos lá tem o pangaré, ops, o Pégasus, que deve ter a mesma idade que o Mu tem agora, acho que vão se dar bem. Pobre Shun e Shiryu, vão ter mais uma criança para tomarem conta. Shaka, meu velho, hoje você está demais, mas também depois de tudo que aconteceu, eu bem que mereço uma boa noite de sono."

Ao chegar ao templo do mestre, depois de driblar a curiosidade de todos, Shaka encontrou Shion que acabara de chegar ao Santuário.

- Shaka, Mu, fico feliz ao ver que estão bem.

- Tio, quem é esse com essas pintas esquisitas?

- Se eu fosse você, Shion, não ficaria tão feliz...

- O que está acontecendo por aqui?

- É uma longa história... uma longa história...

Uma rápida olhada para o antigo discípulo fez Shion juntar os pontos típicos de sua raça, em uma expressão visivelmente preocupada. Mu estava indisfarçavelmete diferente. Shaka não conseguia conter sua irritação. Ele, em geral, era um homem de temperamento difícil, mas parecia que estava em ponto de ebulição, sem a característica serenidade. Além disso ele, Shion, fora chamado com urgência ao Santuário sem explicação alguma. Suspirou. Esperava que Athena esclarecesse o mais rápido possível o motivo de tanta agitação no Santuário.


Pensamento do Dia


"A única coisa boa na segunda-feira é ser o dia mais longe da próxima segunda-feira."

Autor Desconhecido


29 Julho, 2009

Lei de Murphy - Cap. III

III – Destino

Shun e Hyoga partiram rapidamente em direção a Índia, preferiram utilizar-se de velocidade da luz, técnica aprendida durante a Guerra Santa, à meios de transporte convencionais. Já haviam alcançado o Sétimo Sentido há algum tempo e conseguiam facilmente se locomover a velocidade dos Cavaleiros de Ouro. Precisavam encontrar Shaka com a maior rapidez possível. Aqueles que restaram no Santuário, menos Pégasus, se colocaram a pesquisar todas as informações a respeito de tais entidades.

Enquanto isso, em algum lugar da Ásia Central...

- Vocês não estão achando estranho? – uma das entidades perguntou. Era uma mulher alta e loira, belíssima. Não costumava circular pelas cidades, sua aparência era muito diferente da população local. Era uma das mais antigas e fortes. Costumava passar séculos em sono profundo para ter contato com as forças da natureza. Quando despertava, era sempre com uma grande fome e pela primeira vez em sua longuíssima existência decidiu que não dormiria novamente. Resolveu manter-se acordada e transformaria os seres humanos em seus escravos, dessa forma teria uma farta e inesgotável fonte de alimentação. Acordou seus irmãos e juntos, os cinco, iriam dominar o mundo. Porém tão logo começou a alimentar-se para se fortalecer soube que Athena estava encarnada. Isso tornaria sua missão um pouco mais trabalhosa, porém mais prazerosa. Já se enfrentaram antes, em outras eras, e aquela garota mimada, filha de Zeus, tinha feito com que adormecesse novamente. Mas isso já era passado e um tanto distante. Estava agora mais forte que nunca e não mais seria vencida por aquela pentelha.

- O que seria estranho, Liu? – perguntou Mão, um dos irmãos despertados por Liu.

- Estamos com o Cavaleiro enviado por Athena como nosso refém e ainda não vieram outros procurá-lo.

- Não seria porque não sabem onde ele está? Lembre-se que “apagamos” o cosmo dele.

- Talvez, mas mesmo assim ainda é estranho...

- E se a gente se alimentasse dele e devolvesse apenas o corpo?

- Esqueceu que ele é Lemuriano e que somos “alérgicos” a essa raça?

- É verdade. Tinha me esquecido desse detalhe.

- Tenho uma idéia. Poderíamos “apagar” suas memórias e devolvê-lo ao Santuário. Assim a moleca teria noção de nosso poder e ainda estaríamos livres do Lemuriano, pois se o matarmos teremos problemas, mas sem memória ele não se lembrará de nós, nem de como utilizar seus poderes ou despertar seu cosmo. Até que ele seja reensinado já teremos dominado o mundo e estaremos fortes o suficiente para o exterminarmos sem sofrer quaisquer tipos de retaliações.

- Grande plano Shio. Tem minha autorização para levá-lo adiante, porém ele só tem um pequeno ponto fraco. Sabe que o amor verdadeiro poderia ser o antídoto para o feitiço de eliminação de memória, fazendo com que o lemuriano voltasse ao normal?

- Sim, eu sei. Mas, Liu, quem mais além de nós poderia ter esse tipo de informação?

- Não sei. De qualquer forma é o melhor plano que nós temos para nos livrarmos desse estorvo. Vamos colocá-lo em prática o mais rapidamente possível.

Mu encontrava-se preso na caverna onde Liu costumava manter-se adormecida. Era o único lugar em toda face da terra onde Liu tinha poderes suficientes para conseguir evitar que um cavaleiro despertasse seu cosmo. Quando entraram na Câmara onde estava preso, Mu ainda encontrava-se desmaiado. Os cinco deram as mãos em torno do corpo desacordado e começaram a entoar um feitiço em uma língua completamente desconhecida, há muito tempo apagada da memória das pessoas. Uma luz forte os envolveu e toda memória de Mu abandonou seu corpo, se tornando uma esfera luminosa que Liu acondicionou em um recipiente de barro.

- Este cavaleiro era muito sábio, foi muito difícil retirar toda a informação contida no cérebro dele. Precisamos nos alimentar.

Fecharam novamente a câmara e saíram em busca do tão necessário alimento – homens.

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E na Índia...

- Shun quantos mosteiros temos que percorrer?

- Bom, existem centenas deles, porém meu mestre é extremamente metódico. Creio ter uma idéia de em qual deles ele deve estar.

- Então vamos primeiro a este, rápido!

Ao chegarem no mosteiro indicado por Shun realmente encontraram Shaka lá instalado já em meditação profunda.

- Sr. Shun não deve incomodar Mestre Shaka. Ele está em contato direto com o Mestre Supremo.

- Compreendo, porém tenho ordens diretas de Athena para levá-lo de volta ao Santuário imediatamente. Precisamos do Mestre Shaka. A humanidade está em risco novamente.

- Então faça o que tem que ser feito.

Shun sentou-se de frente para Shaka em posição de flor de lótus e também entrou em meditação profunda para contactar seu mestre telepaticamente.

- Mestre, me perdoe por incomodá-lo, mas a necessidade se fez premente, precisamos do senhor no Santuário.

- Eu não irei voltar, Shun.

- Athena ordenou que eu viesse buscá-lo.

- Ela tem mais doze fortes cavaleiros dourados, além de vocês cavaleiros de bronze e Shion. Ela não precisa de mim. Leve consigo minha armadura. Você está pronto para vestir a sagrada armadura de ouro e ser o cavaleiro guardião da casa de virgem.

- Não mestre Shaka, eu não estou pronto, além do mais Athena pode não precisar do senhor, mas Mestre Mu talvez precise...

- Mu... Não diga tolices Shun, ele não precisa de mim. Nunca precisou, foi tudo um engano.

Shaka saiu de sua meditação e sentiu seus olhos arderem com as lágrimas não derramadas. Shun também retornou, mas continuou sentado em frente ao mestre.

- Mestre, irei descumprir uma ordem de Athena, mas vejo que isso se torna necessário. O orgulho e a soberba de Saori já criaram problemas demais. Se, depois que eu contar tudo que sei, você decidir não me acompanhar, irei embora com a armadura de virgem e prometo nunca mais incomodá-lo.

Shun passou a próxima hora descrevendo minuciosamente tudo que ocorreu na reunião dourada. Shaka sentiu a ira dominar seu coração. Se pudesse esganaria com as próprias mãos aquela garota que carregava a divindade que jurara defender com sua própria vida. Mas tinha assuntos mais urgentes, depois se entenderia com Saori. Ela precisava ser mais sábia. Voltaria com Shun para o Santuário. O mais rápido possível.

- Vamos Shun. Creio que realmente Mu deve estar em perigo. Quando vinha para a Índia alguém tentou me pedir socorro, mas foi tudo tão confuso que ignorei. Deve ter sido Mu, agora eu entendo.

Os três cavaleiros sairam do Mosteiro em direção ao Santuário. O coração de Shaka sangrava. Se alguma coisa acontecesse a Mu, a culpa seria sua.

Depois de se alimentarem, ou se banquetearem seria mais correto dizer, as cinco entidades malignas retornaram à caverna. Mu já havia despertado, porém não sabia onde estava, quem era, nada. Sua capacidade intelectual encontrava-se reduzida a de uma criança de três anos de idade. Quando foi encontrado na Câmara, Mu estava encolhido em um canto, em posição fetal, chorando com medo.

- Tia, está escuro, estou com medo.

Liu teve que controlar a enorme vontade de rir. Um poderoso cavaleiro como aquele reduzido a um bebê chorão e medroso, era realmente hilariante. Acariciou a cabeça do cavaleiro e falou com voz suave.

- Pequeno Mu, não precisa ter medo, deite-se em meu colo e descanse.

Liu começou a cantarolar um mantra suave que nada mais era que um outro feitiço para que Mu adormecesse. Não podia correr o risco de revelar a localização de seu covil. Mesmo reduzido a uma criança de três anos de idade, não poderia, nem deveria, subestimar aquele lemuriano. Quando ele estava completamente inconsciente foi despido e levado para o Santuário sendo abandonado, inconsciente e nu, na porta do mesmo.

Algum tempo depois Shun, Hyoga e Shaka chegaram ao Santuário e encontraram o corpo do cavaleiro de Áries, que ainda se encontrava adormecido. Shaka correu até ele...

- MU!

Pensamento do Dia

"Estamos numa época em que o fim do mundo não assusta tanto quanto o fim do mês."

Autor desconhecido


Lei de Murphy - Cap. II

A Reunião Dourada

Desde o renascimento da elite dos Cavaleiros de Athena após a batalha de Hades, esta seria a primeira reunião dourada com fins bélicos. Quando os dourados restantes no Santuário receberam o comunicado, ocorreu um certo espanto geral. O que poderia ter acontecido que fizesse com que Athena os convocasse com tamanha urgência?

Enquanto aguardava a chegada de seus cavaleiros Saori andava pelo salão do mestre torcendo os dedos, nervosa como não se sentia desde a grande batalha contra Hades. Ouvia-se apenas o farfalhar de seu vestido branco e o estalar dos nós dos dedos. Por Zeus, o que havia feito? O que poderia ter acontecido com Mu? Ele era um de seus mais fortes cavaleiros, será que havia subestimado o inimigo? Era uma deusa, a deusa da sabedoria e estava se mostrando uma total e completa tola. E Shaka? Teria ele ido atrás de Mu? Maldição!

Pouco a pouco os cavaleiros chegavam, todos vestidos com suas armaduras. A apreensão era tão visível e palpável que podiam senti-la e tinham quase certeza de que poderiam tocá-la. Sentaram-se em torno da grande mesa existente na sala de reuniões do décimo terceiro templo. Os espaços míticos e milenares do Santuário eram grandiosos assim como tudo que havia ali naquele mundo fora do mundo. Estavam todos os dourados restantes e os cinco principais bronzeados presentes à reunião. Saori levantou-se e começou seu pequeno discurso.

- Bom perdoem-me antes de tudo por mantê-los alheios à missão que designei a Mu, creio que cometi um erro ao subestimar o inimigo. Como todos sabem, eu presido a Fundação Graad e uma das funções dessa é manter uma rede de vigilância monitorando os principais acontecimentos estranhos do mundo. Fui informada que no interior do Continente Asiático ocorreram mortes de pessoas com características completamente distintas de assassinatos comuns e que o pânico estava se espalhando pelas aldeias circunvizinhas a região das mortes. Depois de algumas pesquisas descobrimos lendas sobre entidades míticas que de tempos em tempos precisavam de carne humana para sobreviver.

- Como os vampiros? – perguntou Kamus.

- Em parte. Os vampiros são mortos-vivos que precisam de sangue humano para manter sua pseudo-imortalidade, porém um dia já foram humanos. Estes seres, segundo a lenda, nunca foram humanos, são uma espécie de deuses menores. Em nosso panteão eles seriam considerados semi-deuses pois nasceram da união de deuses com humanos, herdando de seus pais divinos a imortalidade e de seus pais humanos a fome. Não se alimentam de sangue e sim do coração e do cérebro de seres humanos, mas estes sem vestígios de sangue. A principal característica da maneira deles se alimentaram é sangrando a vítima como sangramos porcos e só então se alimentam do cérebro e do coração abandonando o restante pendurado nos galhos das árvores que foram utilizadas no processo de sangramento da vítima.

- Que horror! Saori como pôde esconder isso de nós? – Seiya manifestou-se.

- Athena, Mu pode estar correndo sérios perigos. Se esses seres são realmente filhos de deuses, não temos como saber a extensão de seus poderes nem o que seriam capazes de fazer. - Shiryu ponderou.

- Eu realmente estou preocupada. Porém quando recebi esta informação não dei muito crédito a ela, achei que eram somente lendas sem fundamento de um povo supersticioso e que algum serial killer estava cometendo os crimes se utilizando das lendas locais. Pedi então a Mu que fosse à paisana investigar o que estava acontecendo e retornasse rapidamente com informações mais confiáveis. Ordenei também que mantivesse o mais completo sigilo a respeito do assunto, inclusive do Shaka. Não queria alarmar ninguém sem necessidade.

- Saori, você ordenou isso a Mu? Esqueceu-se do aniversário de Shaka? Desculpe-me, mas você foi no mínimo insensível, quiçá irresponsável. Era necessário que o Mu pudesse ter qualquer contato telepático com o Santuário e quem seria a pessoa mais adequada, além de Shaka.

- Milo! Mais respeito com a Srta. Saori. - Camus admoestou o Cavaleiro de Escorpião.

- Não Camus. Infelizmente ele está certo, fui insensível e esqueci completamente do aniversário de Shaka e fui irresponsável sim ao ignorar completamente normas básicas de segurança ao exigir seu completo sigilo, deveria ter comunicado ao menos a mais um cavaleiro. Por favor, perdoem-me.

Saori abaixou a cabeça e duas lágrimas furtivas cairam de seus olhos. Seiya prontamente a abraçou e secou suas lágrimas. Não importava o quanto ela errasse, para ele, Saori seria sempre Athena e mais ainda a mulher que amava.

- Saori, não fique assim! Nós iremos encontrar e salvar Mu onde quer que ele esteja. Não é pessoal?

- Lógico! – Todos se manifestaram. Agora que a merda estava feita restava a eles apenas consertar. De nada adiantariam críticas e acusações.

- Bom, precisamos então de um plano de ação, decidir aqueles que vão, aqueles que ficarão aqui para defender o Santuário...

- Peraí! – pela primeira vez Shun se manifestou – E o mestre Shaka, o que poderia ter acontecido com ele? Lembrem-se, ele ainda está sumido!

- É verdade! Estamos tão preocupados com Mu, que esquecemos de Shaka. Será que ele também está em perigo? Será que ele foi atrás de Mu? – Aioros perguntou.

- Não creio que Shaka tenha ido atrás de Mu. Talvez ele esteja magoado demais com o “esquecimento” de Mu.

- Como assim Deba?

- Um dia antes de Shaka sumir ele me perguntou se eu tinha notícias de Mu. Apenas disse que faziam dois dias que eu não o via.

- Será que Shaka fugiu? – Milo perguntou.

- Quem sabe ele não voltou para sua terra para meditar?

- É provável, mas como iremos saber?

- Shun, você é discípulo de Shaka. Conhece os mosteiros indianos que ele costumava ir?

- Sim, já fiz algumas peregrinações com ele.

- Ótimo. Você e Hyoga irão aos mosteiros procurar por Shaka, porém não devem falar nada a respeito de Mu. Eu quero conversar com ele pessoalmente. Apenas digam, caso o encontrem, que eu ordenei a volta imediata dele ao Santuário.

- E quanto a Mu, o que faremos?

- De todos o mais adequado para partir em busca de Mu seria Shaka, principalmente devido a natureza do adversário com o qual estamos lidado, caso acreditemos realmente nas lendas. Shaka e Máscara da Morte seriam a minha escolha para procurar Mu. Esperemos três dias para saber se Shun conseguirá encontrar Shaka. Em caso positivo ele irá procurar por Mu junto com Máscara.

- Saori não passa por sua cabeça que três dias pode ser tempo demais? Já faz mais de uma semana que Mu partiu! – Ikky perguntou.

- Vocês irão fazer o que eu estou dizendo. Assim eu decidi! Podem ir! Esta reunião está encerrada.

Todos se levantaram e sairam sem mais nada dizer. Fora do templo do mestre todos se reuniram.

- Ela enlouqueceu de vez! Colocou deliberadamente a vida de um de nós em risco. – Ikky estava revoltado – Estamos todos aqui e ela quer que o único ausente vá procurar o cavaleiro que ela mesma colocou em risco.

- Ela deve saber o que está fazendo e ter seus motivos. Creio que ainda existem informações que não nos foram reveladas.

- O que mais poderia estar escondido Camus?

- Não sei. É apenas uma sensação.

O Cavaleiro de Aquário voltou a seu templo com uma "pulguinha" de três quilos atrás da orelha. A escolha dos Cavaleiros não fora aleatória ou por simpatia. Todos foram escolhidos por seus golpes. Realmente a Deusa tinha mais alguma informação que não revelara, entretanto não conseguia entender os motivos para tanto mistério e sigilo. Que os Deuses os guiassem e protegessem Mu.

Pensamento do Dia


"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim." (Crepúsculo)


28 Julho, 2009

Lei de Murphy - Cap. I

Parecia impossível mas todos haviam esquecido dele, seu aniversário passara, os dias passaram e nada... nem uma palavra, nem uma lembrança. O simples grande nada.

"Certo, eu realmente nunca fui dos mais populares ou extrovertidos, mas até mesmo Ele! Mas eu o entendo, ele me conhece, sabe que eu não gosto de exageros, não ligo para festas e comemorações... Quer saber de uma coisa, chega de me enganar, estou mesmo é muito puto com todo mundo e principalmente com ELE, como simplesmente ignoraram o aniversário do Cavaleiro mais próximo de Deus? Estão todos perdidos comigo."

Shaka deu asas a sua revolta, juntou algumas peças de roupa e simplesmente sumiu do Santuário. Não se deu ao trabalho nem mesmo de avisar Athena. Sabia que estava quebrando algumas dezenas de regras do Santuário, mas realmente não se importava com isso. Estava magoado com o descaso. Não de todos, mas Dele. Estiveram juntos, conversaram e até mesmo fizeram sexo e ele simplesmente esquecera. Se era tão pouco importante assim, então não iria perceber a sua ausência, quem sabe até mesmo definitiva.

Duas lágrimas furtivas caíram e foram secas com o dorso das mãos. Olhou novamente para o aposento, verificou se tudo estava em seu devido lugar, colocou a bolsa nos ombros, fechou a porta e saiu. Utilizou-se da passagem secreta, não queria ser visto por ninguém. Em pouco tempo estava no porto a espera de um navio para sua terra natal. Não queria pensar em nada, não queria se lembrar de nada. Precisava encontrar novamente a perdida paz espiritual. Desde que se apaixonara, desde que se entregara a esse sentimento afastara-se cada vez mais de seu passado, de sua iluminação. Não que isso fosse ruim, o amor era bom, não, o amor era maravilhoso, mas o sofrimento e as decepções que vinham junto eram terríveis. Virou as costas para o continente e fixou seus olhos no mar, adiante, à frente, o futuro estaria em outro lugar, longe dali, longe dele.

-------------- X ------------------

Mu caminhava pelas florestas asiáticas preocupado, não esquecera o aniversário de Shaka, mas queria um momento especial com ele, uma comemoração digna dele. Preparava tudo quando fora chamado por Athena – às vezes parecia que ela não tinha um pingo de senso de ridículo – e enviado as escondidas para algumas investigações, a seu ver, tolas. Não sabia como Shaka reagiria, mas na volta teria tempo de contar todo o ocorrido. Tentava trabalhar o mais rápido possível, mas parecia que tudo conspirava contra. Estava tão absorto em seus pensamentos que nem se deu conta das cosmo-energias hostis que estavam a sua volta. Sem que percebesse foi atingido por um forte golpe pelas costas e caiu desacordado. Ao recobrar a consciência Mu se viu em um estranho lugar. Tentou levantar-se, ver onde estava. Sentiu uma enorme vertigem e se deixou cair, alguma coisa parecia muito errada.

- Nobre Cavaleiro de Áries, estás em um lugar onde sua força o abandona. Sua cosmo energia foi devidamente enfraquecida. Nós sabemos de sua força e sabemos que se pudesse utilizar seus poderes não conseguiríamos mantê-lo aqui por nem mesmo 10 segundos.

- Quem são vocês afinal, o que eu estou fazendo aqui? – Mu estava irado. Não gostava de estar fraco, não gostava de não ter respostas, não gostava de estar longe de seu amor e definitivamente não gostava daquele lugar.

- Se eu fosse você ficaria calmo, tentaria encontrar a tão comentada serenidade do Cavaleiro Mu de Jamiel. A fúria ariana não te fará bem agora. Creio já ter falado demais. Você está sob o domínio de entidades místicas que habitam as florestas orientais. Os deuses Ocidentais não deveriam se meter nos nossos assuntos, principalmente a enxerida da Athena e seus malas, digo e seus cavaleiros. E por isso irão pagar. Você será o primeiro, mas não agora. Se eu fosse você guardaria forças para seu futuro próximo, irá precisar delas.

Mu sentiu um arrepio na espinha, estava sozinho, sem sua armadura, trabalhava à paisana por exigência de Athena, sua cosmo energia reduzida praticamente a zero, não sabia como fazer. Tentou se concentrar, se pudesse falar telepaticamente com Shaka, talvez ele pudesse ajudar. Usou a pouca energia que tinha, mas o amado não respondia, o que poderia estar bloqueando até mesmo sua telepatia? Esgotou-se nesta última tentativa e desmaiou mais uma vez.

----------------- X ---------------

Shaka estava dentro do navio quando sentiu algo estranho, uma tontura, como se alguém estivesse em perigo tentando se comunicar, mas era uma sensação tão distante e tão confusa, deveria estar sendo causada pela sua cabeça fora de foco. Sacudiu os longos cabelos espantando a sensação esquisita e selecionou um livro para se distrair durante a longa viagem. Desde seu aniversário se passaram três dias e Mu simplesmente sumira. Perguntara a Aldebaram por ele e este disse que a casa de Áries estava vazia e que não sabia nada acerca do vizinho. Seu orgulho não permitiu pesquisas mais aprofundadas, achando apenas que era descaso do amado, resolvendo então partir. Quando chegou a Índia, Shaka partiu para uma pequena vila, hospedou-se em um mosteiro e entrou em meditação profunda. Seu cosmo reduziu-se propositalmente para que não fosse achado e para que pudesse concentrar-se em busca do equilíbrio perdido.

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No Santuário, o primeiro a perceber a falta dos Cavaleiros de Áries e de Virgem foi Aiólia, o cavaleiro de Leão. Não sentia o cheiro característico do incenso de Sândalo usado por Shaka, não via Mu passando sorrateiramente, não ouvia os sons do amor dos dois. O que havia acontecido com eles? Será que foram namorar em Jamiel? Durante uns três dias, o cavaleiro de Leão achou isso, porém a ausência já estava estranha demais. Resolveu conversar com Saori.

- Athena, tenho estranhado a ausência de Mu e Shaka, tem notícias deles, minha senhora?

- Bom, Mu já deveria ter me mandado notícias a respeito da missão a ele confiada, já estava até um pouco preocupada com ele, não sinto sua cosmo energia, mas Shaka, eu nem mesmo sabia que ele estava ausente do Santuário. Precisamos encontrá-los. Reúna por favor os demais cavaleiros para que possamos decidir o que fazer.

- Comunicarei a todos que aqui estão para que nos reunamos após o almoço.

- Perfeito. Aguardarei a todos para dar maiores detalhes acerca da missão de Mu e juntos decidiremos o que fazer.


Comentários da Autora: Eu não mexi na história, nem acrescentei nada ao capítulo que não existisse, apenas fiz algumas correções para que o texto fluisse melhor e ficasse mais coerente.


Frase do dia:


Preparem as suas almas, porque os seus corpos já nos pertencem, (Tropa de Elite)

Explicações...

- Nossa... essa dispensa está completamente vazia... - Milo reclamava abrindo as portas dos armários do Recanto.
- Mon ange... acho que ela não quer saber mais desse pedacinho querido.

Mal o cavaleiro de Aquário acabou de falar dois enormes caminhões param na porta do Recanto. Um continha um carregamento imenso de comida - a maioria pouco saudável - e outro de bebidas - a maioria esmagadora alcóolica.

- Queridos! - AA é recebida com almofadadas e outras coisas que os cavaleiros subnutridos encontravam em mãos...

Depois dessa recepção calorosa acho que devo algumas explicações... Não vou começar com o bla-bla-bla básico dos meus problemas, mas apenas quero dizer que estive completamente sem saco de atualizar isso aqui e mais outras coisas, mas aos poucos retorno em condições normais de temperatura e pressão e vou começar com um projeto antigo... reescrever a minha primeira fic...

- NÃOOOOOOOOOOO!!!!

- Algum problema Shaka?

- Você não vai recontar aquela história...

- É claro que vou! Eu sempre quis fazer isso...

- Por Athena... não merecemos...

Acho que o nosso cavaleiro de virgem está treinando para ser o novo galã de uma mega produção mexicana... Enfim... eu quero reescrever essa fic de forma mais amadurecida. Espero que, se alguém além de mim ler isso, goste.

Liderar não é impor, mas despertar nos outros a vontade de fazer.
Autor Desconhecido

06 Novembro, 2008

Enquanto isso... Na Sala do Recanto XI

Todos reunidos na sala do Recanto aproveitavam o tempo vago, o cantinho disponível para relaxar.

- Relaxar sim, mas não podemos ficar cegos ao que acontece a nossa volta, afinal somos os defensores da humanidade!

- Olha quem fala! O cego profissional do Santuário! - Milo desdenha de Shiryu - Mas apesar disso, nosso "ceguinho" tem toda razão.

Este blog não tem a menor pretensão de discutir absolutamente nada sério. Ele é um cantinho para nossos cavaleiros relaxarem e uma vitrine de fics, mas mesmo assim não posso fechar os olhos para certas coisas.

Uma das coisas que sempre me proponho a discutir, mesmo que de maneira leve é o PRECONCEITO, sob todas as suas nefastas formas.

O último século, desde os primórdios do séc XX assistimos passivos e pasmos à mudanças frenéticas e radicais acontecidas no mundo... guerras, movimentos de libertação, quedas de velhos mitos, evolução tecnológica...

Ainda falta muito. Ainda temos muito a caminhar e diria eu que a grande mazela mundial no tocante "preconceito" está arraigada no fundamentalismo religioso, no fanatismo pelo divino que repreende e condena as diferenças.

Mais um tabu caiu e um dos principais redutos do racismo velado, escondido e vivido sob a capa de "freedom" no "American Way of life" elegeu um representante negro para a "White House". O simbolismo desta eleição é muito maior que a eleição em si, do que o homem em si. Ele pode vir a ser o pior presidente que a América ou o mundo já viram, mas estará em todos os livros de história ao lado de Nelson Mandela, Martin Luther King, Zumbi... o herói negro elevado a rei nos braços do povo branco capitalista.

Esperança... ainda tenho esperança de ver um mundo livre, que aceite as diferenças e que acima de tudo tenha paz. Parabenizo o povo americano por dar mais um passo rumo à vitoria de ideais tão antigos e ao mesmo tempo tão modernos como "Liberdade, igualdade e fraternidade".

Eu sei que é um post chato e sem motivo, mas não podia me furtar de comentar.


Frase do Dia
"Todo mundo precisa crer em algo. Creio que vou tomar outra
cerveja. "
(Groucho Marx)

05 Novembro, 2008

Revolta - Cap. II

Disclamer: Saint Seiya e todos os seus personagens não me pertencem, e sim ao titio Kurumada (o que é uma sacanagem, mas tudo bem, fazer o quê?)

Comentários da Autora: Esta fic nasceu de um desafio que fiz a mim mesma. O que aconteceria de Shun-Rei deixasse de ser pacata e subserviente? Como Shiryu reagiria? O resultado são as linhas abaixo. Lembrem-se os personagens estão OOC. Espero que gostem. Abraços.


Revolta - Cap. II - Momento lavanderia


Shiryu chegou ao Templo de Áries rapidamente. Tomara um banho relâmpago colocara uma roupa simples de treinamento e fora ao encontro de sua esposa. Quando entrou na casa de Áries, ela encontrava-se sentada à mesa da cozinha. Acabara de tomar o refresco oferecido por Kiki e comia alguns biscoitos destraidamente.

- Querida, que saudades. Estou tão feliz por te ver. – o cavaleiro abraçou Shunrei e beijou sua cabeça.

- Pode me largar seu sem-vergonha, desnaturado! – ela se levantou abruptamente virando-se para ele. Seus olhos faiscavam de raiva. “Que cara-de-pau! Se pensa que vai me amansar assim está muito enganado!”

- O que está acontecendo? Depois de tanto tempo vem aqui para me xingar? Se é esse o caso, pode voltar pelo mesmo caminho.

- Provavelmente eu voltarei pelo mesmo caminho em breve, mas não antes de falar tudo que tenho a dizer. Espero que me ouça se ainda lhe restar algum respeito por mim.

- Você sabe que te respeito e te amo. Não consigo entender o porquê de estar assim.

- Se você ligasse para sua casa, se você ligasse para sua família talvez tivesse alguma idéia do que está acontecendo.

- Shunrei, por favor controle-se. Vamos conversar feito duas pessoas civilizadas. Nem mesmo estamos em nossa casa. Não creio que se conveniente abusarmos tanto da hospitalidade alheia.

- Conveniente! Você só pode estar de gozação comigo! Eu quero que sua conveniência vá para o caralho! Você preocupa-se demais com os outros. Mas concordo que não devemos incomodar Kiki com nossos problemas. Ele fora deveras gentil comigo. Vamos para sua casa, ou será que não é conveniente que eu entre lá?

Shiryu nada falou. Pegou Shunrei pelo braço e começou a arrastá-la para fora da casa de Áries, subindo as escadas.

Os templo e seus guardiões estavam muito mudados. Uma legião de novos cavalheiros ocupavam hoje as doze casas do Zodíaco. Os ressurrectos Cavaleiros de Ouro que lutaram na última Guerra Santa hoje viviam em paz com seus pares. Alguns ainda moravam na Vila do Santuário, como Milo e Camus, outros retornaram para suas terras natal como Mu e Shaka que foram morar na torre de Jamiel. Algumas casas ainda estavam vazias, como a casa de Touro, esperando a formação do novo guardião, outras eram ocupadas pelos antigos cavaleiros de bronze, como a que ele próprio ocupava, Libra.

Continuou subindo as escadas, sem importar-se com os olhares curiosos que recebia. Shunrei, apenas o acompanhava – devidamente arrastada pelo braço – em silêncio. Guardava para si o muito que tinha a dizer até que estivessem novamente a sós.

Finalmente chegaram a casa de Libra. Entram nos aposentos reservados ao cavaleiros. Se acomodaram na cozinha simples da casa de Libra que muito lembrava a ela sua própria casa em Rozan. Ela sentiu-se bem ali e isso a deu mais coragem e força. Seria bem melhor discutir o que precisava em um ambiente que não a intimidasse.

- Estamos a sós agora. Pode falar o que tem a dizer. Sou todo ouvidos.

- Quer parar com essa pose de “ela está fora de si, vou ser condescendente”. Você sabe muito bem que está tudo errado.

- Será que você pode me explicar o que está errado. Do que estou sendo acusado afinal. Porra, você não viajou centenas de quilômetros para ficar aqui apenas a me ironizar? Não creio.

- Você não vai perguntar como estão seus filhos?

- E você me deu tempo para isso? Que tal começarmos de novo? Shunrei, estou feliz em vê-la, como vai você? Como vão as crianças?

- Cachorro, cretino, sem-vergonha, eu vou bem, na medida do possível, para uma mulher abandonada pelo marido que quase perdeu o filho mais novo.

- Quase perdeu o filho mais novo? O que você está querendo dizer com isso?

- Simples, quando você vem pra cá, babar ovo da deusa pop-star, se esquece que tem família, que tem esposa e filhos. Não sei se lembra que quando saiu de casa, eu implorei que não viesse. Junior estava doente, febril. A sua saída agravou as coisas, a febre piorou consideravelmente, de tal forma que não conseguia mais controlar com os remédios que eu sempre usei. Fiquei desesperada, pedi a um aldeão que me levasse de carroça, com o menino delirando em meus braços até o hospital mais próximo, que você sabe, não é tão próximo assim. Mandei centenas de recados para esse Santuário, mas você estava incomunicável. A pobre telefonista já até sabia de todos os nossos dramas e me perguntava preocupada como estava o nosso moleque, e você? E você Shiryu? Eu orava noite após noite para que regressasse ou ao menos ligasse pra mim. Chorava escondida no hospital cada vez que o Júnior, em seus delírios, chamava por você. Responda-me sinceramente: o que te fiz, o que fiz aos Deuses, para merecer tamanha dor, tamanha angústia?

- Por Zeus!

Shiryu se calou. Não tinha o que falar. Só podia baixar a cabeça e aceitar todos os adjetivos que recebera. E merecia alguns piores. Recebera os recados, como todos os outros cavaleiros o recebem, em envelopes lacrados. Não se dera nem ao trabalho de abri-los. Já poderia ter voltado a Rozan há muito tempo, mas enrabichara-se pela amazona que estava com ele na arena e por um período de tempo esquecera-se de Shunrei, esquecera-se das crianças, esquecera-se de tudo.

- Eu gostaria de saber o que aconteceu com o homem sensível, preocupado, amoroso com que me casei? O que aconteceu com você? Onde eu errei? Onde nós erramos? Depois de velho está ficando safado? Você nunca me deu toda a atenção que eu desejava, mas eu sabia que seria assim quando aceitei casar-me com você. Mas agora! Minha paciência se esgotou. Ver meu filho quase morrer por causa de um pai que ele viu poucas vezes na vida? Foi demais para mim. Você travou batalhas mortais, defendeu Athena e a humanidade, por aqueles que o conhecem, é respeitado, admirado. E eu? O que foi a minha vida, o que tem sido a minha vida nestes últimos dez anos? Estou com 27 anos de idade e pela primeira vez em minha vida vi um microondas no aeroporto. Lavo, passo, cozinho, crio as crianças como faziam nossos antepassados. Mas elas pelo menos tinham seus maridos a seu lado. Nem a isso tenho direito, mesmo em tempos de paz. Eu quero viver Shiryu. Gostaria de viver a seu lado, mas não me parece ser isso que quer.

- Você está sendo injusta. Sempre que pude voltei correndo para casa, voltei correndo para você. Nunca esqueci um só instante de você. – “desde quando se tornara um mentiroso, Dragão?” – sua consciência o repreendia.

- Não tente me tornar mais tola do que já sou!

- Está certo, sou um canalha, um cachorro, um sem-vergonha, mas foi esse canalha que se casou com você, que deitou na sua cama, que tirou sua virgindade, que te deu lindos filhos, foi esse canalha que, mesmo não estando presente sempre que desejou, nunca deixou que nada faltasse a você ou aos seus filhos. E é esse canalha que ajoelha a seus pés agora e pede perdão. – ele resolvera mudar de tática e realmente assumir para si as culpas que tinha e pedir perdão. Ela o perdoaria e tudo voltaria a entrar nos eixos. Pelo menos assim ele acreditava.

- Quantas vezes nós já discutimos? Quantas vezes já me pediu perdão? Quantas vezes eu já me esqueci de meu peito ferido? Não, não estou disposta a ceder mais uma vez. Para mim chega. Vim aqui, antes de mais nada, te dizer tudo que me sufocava, que estava sangrando meu coração dia após dia e comunicar que estarei indo para Pequim com as crianças. Lá poderemos ter mais oportunidades do que na perdida aldeia de Rozan.

- Não existe outra maneira de resolvermos isso? Eu não quero que se vá. Não quero perdê-la.

- Pare. Não fale mais nada. Quantas vezes eu já ouvi este mesmo discurso, esta mesma ladainha. Não tem mais volta. Dei-te quantas chances me pediu, mais até mesmo do que deveria e o que fez? Pensa que não sei o porquê da rapidez com que Kiki foi atrás de você? Não o repreendo. Ele é seu amigo e gostaria de poupar-me da cena constrangedora de vê-lo agarrado a outra mulher. Eu conheço seu cosmo a quilômetros de distância, me é tão natural quanto respirar. Sei quando está excitado, sei quando está nervoso, sei quando está triste. Conheço-te mais do que a mim mesma. Você sempre foi meu mundo, meu Deus, meu ídolo, e como você me retribui? Se agarrando pelos cantos com sei lá eu quem? Há quanto tempo? Quando poderia ter realmente voltado se quisesse?

- Olhe para você, olhe para sua amargura, olhe para suas reclamações. Você nunca foi enganada no tocante a minha vida, mas mesmo assim quis ficar comigo. Inúmeras vezes chamei-te para vir comigo morar no Santuário e você nunca quis. Cada vez que eu voltava para casa, mais uma enxurrada de reclamações, problemas, sem carinho, sem nada. Para ter sexo, isso mesmo, sexo, porque amor deixamos de fazer a anos, eu quase precisava estuprá-la. Que homem quer voltar para casa e encontrar a mulher que sempre amou desta maneira? Me diga! Seja sincera! Você acha que só você tem problemas? Nós nunca conversamos. Eu sempre ouvi calado suas reclamações. Sempre ouvi calado seu desdém por minha deusa, por meus amigos, por minha luta, até mesmo por minha armadura. Você pensa que é a dona da verdade? Você pensa que só você sofre? Quanto egocentrismo Shunrei. Nunca pensei que você pudesse ser assim! Eu realmente não gostaria que fosse embora. Apesar de estar realmente agarrado no cangote de uma amazona, eu te amo. Eu te amo, porra! Está me ouvindo? EU TE AMO. – neste momento, possivelmente todo Santuário já seria capaz de ouvir a discussão travada no interior da casa de Libra, sem que percebessem há muito tempo já estavam aos berros – Mas não vou implorar que fique, não vou rastejar atrás de você como já fiz muitas vezes, se quiser realmente ir para Pequim, para Tókio, para Paris, para o Rio de Janeiro, vá! Não vou dizer que não sofrerei pois seria mentira, mas não a impedirei de fazer o que quer que deseje. Mas que uma coisa fique bem clara. Meus filhos você não levará contigo. Não deixarei que se aventurem pelo mundo afora com uma mãe despreparada e visivelmente desequilibrada.

- É claro que eu levarei as crianças comigo. E desequilibrada é uma pinóia.

- Você não ouviu nada do que eu disse?

Shunrei permaneceu em silêncio. Lágrimas grossas escorreram por seu rosto. Um soluço contido pôde ser ouvido.

- O que fizemos conosco? O que estamos fazendo aqui? Por que nos agredimos desta maneira?

- Será mesmo que você não sabe a resposta, querida?

- Como eu poderia saber?

- Olhando dentro de si mesma, do nosso relacionamento. Será que minhas atitudes não foram apenas um reflexo de suas próprias atitudes? Será que a minha distância não é fruto de sua própria frustração? Ou será que, pela primeira estamos dando forma aos monstros que há anos vêm crescendo dentro de nós e sempre procuramos escondê-los nos mais desconhecidos recantos de nossa alma? Quantas vezes fomos verdadeiros um com o outro e consigo próprio como estamos sendo agora?

- Creio que tenha razão. Mas estamos nos machucando, estamos nos magoando acima do limite do aceitável. Eu não estou mais me reconhecendo nem a você.

- Nem eu minha querida, simplesmente porque agora estamos colocando para fora o que realmente somos ou o que realmente nos tornamos. Eu continuo te amando e te querendo a meu lado. Mas como já disse, a escolha é sua e te apoiarei na decisão que tomar, mas que fique claro: você vai, mas as crianças ficam. Não seria justo tirá-las do mundo que elas conhecem para entrar num mundo cuja realidade não condiz com a deles. Já está na hora de começar o treinamento dos garotos, já passou da hora, esta é a verdade, mas nunca quis que eles saíssem debaixo de suas saias. Esse é o destino deles, como foi o meu e o seu. Não tente se enganar. Não creia que vai se adaptar ao mundo. Você, mesmo nunca tendo usado armadura, é uma amazona de Athenas, tanto que é capaz de reconhecer meu cosmo e saber que não estava sozinho e que não era um homem que estava comigo.

- Será que temos chance de resgatar nossa felicidade?

- Se estivermos dispostos a ceder, perdoar e mudar, eu creio que sim.

- Eu ainda te amo, meu Dragão!

- Eu ainda te amo, minha pequena!

Eles se agarraram num beijo desesperado. Sentimentos dos mais contraditórios estavam todos ali, misturados. Ciúme, amor, paixão, desejo, medo, tudo impresso em um único beijo. Um único ato para expor e expurgar toda a mágoa. Beijaram-se até que o fôlego acabasse. Beijaram-se como se fosse a primeira vez e também como se não houvesse amanhã. O momento tornou-se mágico. Único. Indecifrável e indescritível dentro de si mesmo.

As blusas começaram a ser arrancadas, os sapatos jogados a esmo. As mãos percorriam os corpos como se nunca tivessem sido tocados. Com euforia, com pressa, desajeitadamente. As calças rasgaram-se, não havia tempo para soltar botões. Não era possível controlar tanto desejo. Amaram-se ali, no chão da tosca cozinha como dois adolescentes descobrindo o primeiro e único amor.

E estavam realmente redescobrindo-se, redescobrindo o amor e, pela primeira vez em muitos anos, fizeram amor, fizeram sexo. Natural, gutural, seco e definitivamente prazeroso. Quem estava de fora, ouviu ainda algumas cadeiras caindo, copos quebrando. Mas ele não estava sendo alvo da louça! Apenas a volúpia do momento fazia com que movimentos desajeitados em uma pequena cozinha quebrassem coisas.

O mundo tremeu. A terra tremeu pela força do amor deles.

Kiki permanecia sentado no terraço da casa de Áries. Assim como seu mestre Mu, gostava muito de passar seu tempo livre naquele terraço sentindo a brisa da montanha bater em seu rosto.

Ótimo lugar para pensar na vida.

Se tornara um cavaleiro forte. Honrava a sagrada armadura de Áries. Mu fizera um bom trabalho consigo, mas ainda era imaturo. Nessas épocas de paz, sobrava muito tempo para filosofar. Ouvira toda discussão de Shiryu e sua esposa. Pudera pensar muito a respeito do assunto e, realmente, todo casamento acabava assim, erros e acertos, agressões e brigas que fatalmente terminavam na cama, nos cosmos explodindo. Não sabia dizer com relação ao restante da humanidade, mas naquele microcosmo do Santuário, todos os casamentos acabavam assim e reconstruíam-se assim, como as próprias colunas dos templos, tantas vezes destruídas em batalhas mortais e novamente levantadas, cada vez mais belas, pelos cosmos da Deusa e de seus ocupantes.






Frase do dia

"Se você consegue aprender através
dos duros golpes, você também consegue aprender pelos suaves toques.
"
( Carolyn Kenmore )




Observação da Autora: Eu tenho a nítida impressão de que está faltando alguma coisa nessa fic, mas decidi não alterar o seu conteúdo, apenas corrigi eventuais erros gramaticais que consegui encontrar. Se alguém se der ao trabalho de ler até aqui e quiser comentar ou complementar, eu agradeço.

Abraços

Athenas de Áries